"Procuro adversário para jogo amigável de xadrez" escrevi a giz no muro velho cheio de musgo que fica na rua que vai dar ao infinito. Puxei do caderno de palavras cruzadas e do lápis que levava no bolso.
Devia ter trazido uma caneta - pensei.
Sentei-me no chão junto ao muro, na esperança de que o tabuleiro de xadrez chegasse a horas e de preferência quase vazio... Nunca gostei de multidões.
Lembrei-me que a falha de horários é coisa habitual quando há um xeque-mate, e isto de pedir um tabuleiro de substituição é coisa para uma vida inteira. Espero que o rei não se deixe seduzir facilmente mas ao mesmo tempo desejo que a rainha seja suficientemente audaz para o derrubar.
"2 horizontal : Capacidade de superar, de recuperar de adversidades, com onze letras."
Experimento a RESILIÊNCIA em prol da DESISTÊNCIA.
Olho para o fundo da rua e só vejo silêncio pintado nas paredes demasiado lisas do vazio, e lá ao fundo, o infinito.
Volto a focar-me:
"5 vertical: Estímulo, incitamento, com sete letras"
Penso nas sete vidas dos gatos, penso nas sete notas musicais, penso na sétima onda e penso que nada disto faz sentido. Experimento o IMPULSO e desisto da INÉRCIA. Reparo que o bico do lápis se partiu e eu não tenho afia... Devia ter trazido uma caneta - penso eu novamente.
Guardo o velho caderno de palavras cruzadas no bolso, atiro o lápis em direcção ao horizonte lá para os lados do sol-posto.
E o tabuleiro que não chega! Preciso chegar ao infinito antes do fim da tarde desta vida.
Apanho boleia de um alfabeto todo desarrumado que vinha a passar no preciso instante em que tinha decidido apagar a frase do muro.
Vejo o tempo passar entre as letras que se vão formando em palavras... A de Além, E de Emoção, C de Caminho e de Coração e de ...
Bah!... de que servem as palavras? - penso.
" 6 vertical: Dez vezes Cem, com três letras."?
MIL!
Porra! Esta era fácil! Se tivesse trazido a caneta completava mais uma linha das palavras cruzadas.
"4 horizontal: Qualidade do que pode acontecer, do que é possível, com treze letras."
Só pode ser a POSSIBILIDADE - penso.
Sem caneta de que me serve o caderno das palavras cruzadas? Arranco-o do bolso com a raiva de quem acorda tarde porque o despertador não tocou e abandono-o na prateleira do "E".
Salto por cima do "R", e escapo-me do alfabeto pela curva do "C" e sinto-me em casa.
"7 horizontal: Não finito; sem fim, com oito letras."
Só pode ser o INFINITO.
Doi-me a planta dos pés e percebo que estou descalça.
Um pensamento acompanhado de um sorriso de desdém: esqueci-me da razão junto ao muro! Não faz mal, a razão já não tinha atacadores e já me andava a cair dos pés.
"10 vertical (duas palavras) Jogada de ataque ao rei que remata a partida do xadrez"
XEQUE-MATE

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