março 22, 2017

"Procuro adversário para jogo amigável de xadrez" escrevi a giz no muro velho cheio de musgo que fica na rua que vai dar ao infinito. Puxei do caderno de palavras cruzadas e do lápis que levava no bolso. 
Devia ter trazido uma caneta - pensei. 
Sentei-me no chão junto ao muro, na esperança de que o tabuleiro de xadrez chegasse a horas e de preferência quase vazio... Nunca gostei de multidões. 
Lembrei-me que a falha de horários é coisa habitual quando há um xeque-mate, e isto de pedir um tabuleiro de substituição é coisa para uma vida inteira. Espero que o rei não se deixe seduzir facilmente mas ao mesmo tempo desejo que a rainha seja suficientemente audaz para o derrubar. 
"2 horizontal : Capacidade de superar, de recuperar de adversidades, com onze letras." 
Experimento a RESILIÊNCIA em prol da DESISTÊNCIA. 
Olho para o fundo da rua e só vejo silêncio pintado nas paredes demasiado lisas do vazio, e lá ao fundo, o infinito. 
Volto a focar-me: 
"5 vertical: Estímulo, incitamento, com sete letras" 
Penso nas sete vidas dos gatos, penso nas sete notas musicais, penso na sétima onda e penso que nada disto faz sentido. Experimento o IMPULSO e desisto da INÉRCIA. Reparo que o bico do lápis se partiu e eu não tenho afia... Devia ter trazido uma caneta - penso eu novamente. 
Guardo o velho caderno de palavras cruzadas no bolso, atiro o lápis em direcção ao horizonte lá para os lados do sol-posto. 
E o tabuleiro que não chega! Preciso chegar ao infinito antes do fim da tarde desta vida. 
Apanho boleia de um alfabeto todo desarrumado que vinha a passar no preciso instante em que tinha decidido apagar a frase do muro.
Vejo o tempo passar entre as letras que se vão formando em palavras... A de Além, E de Emoção, C de Caminho e de Coração e de ... 
Bah!... de que servem as palavras? - penso.
" 6 vertical: Dez vezes Cem, com três letras."? 
MIL! 
Porra! Esta era fácil! Se tivesse trazido a caneta completava mais uma linha das palavras cruzadas. 
"4 horizontal: Qualidade do que pode acontecer, do que é possível, com treze letras." 
Só pode ser a POSSIBILIDADE - penso. 
Sem caneta de que me serve o caderno das palavras cruzadas? Arranco-o do bolso com a raiva de quem acorda tarde porque o despertador não tocou e abandono-o na prateleira do "E". 
Salto por cima do "R", e escapo-me do alfabeto pela curva do "C" e sinto-me em casa. 
"7 horizontal: Não finito; sem fim, com oito letras."
Só pode ser o INFINITO. 
Doi-me a planta dos pés e percebo que estou descalça. 
Um pensamento acompanhado de um sorriso de desdém: esqueci-me da razão junto ao muro! Não faz mal, a razão já não tinha atacadores e já me andava a cair dos pés. 
"10 vertical (duas palavras) Jogada de ataque ao rei que remata a partida do xadrez"
XEQUE-MATE

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