Começou a dançar ao som do medo e habitou-se. Como se tudo aquilo que o impedia de mexer os pés o mantivesse ainda mais preso às tábuas do soalho. Há fantasmas que se escondem nas veias, nas vísceras, na cartilagem dos ossos e habitam todo um corpo que se entrega a eles. Ele era um enigma para os seus próprios demónios.
Por um instante pensou nela e no instante seguinte censurou o pensamento, varreu-o da sala.
Não só aquele. Não aquele que acabara de ter, mas todos os pensamentos que fizessem caminho às lembranças que guardava dela.
Acendeu um cigarro para matar o vício. Não o vício de fumar mas o vício de pensar nela num instante e deixar de pensar nela no instante seguinte. Boas memórias. Boas e demasiadas memórias para serem apenas memórias.
Talvez uma dança com o silêncio, mesmo que uma dança sem movimentos o arrancasse daquele quadrado patético de banda desenhada e arrancasse dali aquele balão de pensamentos que estava prestes a rebentar. Encurralado em si mesmo, numa historia sem meio, sem fim, sem nada. Zero. Era assim que se sentia.
Fumou mais um cigarro. E outro, e mais outro e ainda outro. Mantinha-se sentado naquele cadeirão velho e coçado há horas. Tantas horas que se convertidas em minutos eram suficientes para lhes perder a conta. A insónia. Mais uma vez a insónia a roubar-lhe lucidez e a arrastá-lo numa espiral de loucura demasiado quieta, amorfa e conformada. Os vincos da pele que horizontalmente lhe marcavam a testa davam-lhe um semblante sombrio. O olhar carregado, o sangue aos gritos, o silêncio da casa e os demónios a morder, aos poucos, por dentro. Tão somente ele e todo o Amor que lhe sentia e que insistia em esmagar a favor dos fantasmas e dos medos. Os dele.

Sem comentários:
Enviar um comentário