março 28, 2017

Bar El Bandoneón

O timbre das vozes, o burburinho aceso das conversas, o tilintar dos copos, as gargalhadas, o fumo do tabaco, o ar docemente alcoolizado e as vozes. Novamente as vozes. As vozes que me perseguem durante a noite enquanto durmo, enquanto não durmo, enquanto caminho neste mesmo compasso à luz do dia, nesta mesma altivez viciante de atrair olhares sobre mim ainda que fora destas paredes, ainda que longe do dever a que esta vida me obriga ou a que me obrigo. Estas vozes que mesmo divididas por mil casas de portas fechadas e bocas caladas continuamente se juntam algures para me assombrarem com obscenidades ditas ao ouvido. Aqui não as oiço, aqui os meus passos são acompanhados pelo silêncio que bebo em goles secos enquanto os meus olhos percorrem as mesas e saltam de cabeça em cabeça á espera de um sinal: um olhar, uma mão, um aceno, ou talvez uma voz mais alta destacando-se da multidão a chamar o meu nome.

Fátima Encarnado in Amy - 2009

Sem comentários:

Enviar um comentário

Web Statistics