A árvore... Sabes a árvore? Aquela árvore?
Talvez não te lembres...
Não faz mal que não te lembres.
Lembro-me eu e isso basta-me como me bastam estas palavras no silêncio em que tu as lês sabendo eu que nesse mesmo silêncio as escrevo para ti.
E o silêncio? Sabes?
Sabes de que cor são os teus silêncios? Os teus silêncios têm cor?
Os meus têm... e talvez não saibas que todos os silêncios têm sempre a mesma cor.
É.
São sempre da cor que tu quiseres, são sempre da cor que eu quiser... Simples!
Sabes, lembro-me de cada um dos ramos da árvore. Lembro-me que os contei em silêncio enquanto olhavas para mim.
Estarás com certeza a pensar que é impossível contar os ramos das árvores mas o impossível não existe nas terras da Magia e nunca te esqueças que é lá que eu habito. Foi lá que me reconheceste...
Lembro-me do cheiro quente do tronco e da irregularidade da sua textura como se fossem cicatrizes de lágrimas: umas de felicidade e euforia e outras de tristeza e melancolia...
Lembro-me do toque sedoso das folhas na minha boca...
Lembro-me que a brisa quente daquela tarde sacudiu um dos ramos que, ao de leve, desceu ao meu sorriso e me fez cócegas. E lembro-me que te sorri como tu me sorriste...
Lembro-me da sombra fresca dessa árvore, mas lembro-me sobretudo da luz e do calor que beijava todos os contornos dessa sombra...
E lembro-me das gavetas...
É.
Gavetas!
Nunca te esqueças que habito em terras de Magia onde tudo é porque eu acredito que é...
É isso mesmo. Acredito que as árvores guardam gavetas nos seus troncos...
E então?!
Como é?
Segues-me ou ficas aí parado a questionar o meu mundo?!
Segues-me ou ficas no limbo desta realidade que não é mais que a minha própria loucura? Sim, sou louca mas não esperes que te convide a entrar no meu coração...
No meu coração ninguém entra com convite...
Quem lhe descobriu o caminho mora lá dentro.
Era assim. Era assim até que vieste tu e ficaste entre-portas...
Até quando vais ficar aí a observar-te? Até quando o medo te vai manter junto á orla seca da areia com medo de molhar os pés?! Até quando?!
Entra, sente e ama-me neste coração desarrumado sem paredes e deixa que eu te ame neste lugar tão meu, junta-te a mim neste novelo de luz e deixa-nos ficar. Só ficar.
Sente-te neste espaço tão para além do teu olhar, tão para além de mim mesma e fica.
Lembras-te da àrvore?
Aquela que fica mesmo a caminho do meu coração?
Lembras?
É.
Consegues vê-la. Eu sei que consegues.
Sim essa... a tal que tem gavetas.
Já reparaste que estás debaixo da sua sombra confortavelmente encostado ao tronco? Reparaste em toda a luz que abraça e beija cada linha dessa sombra? É a minha luz, é o meu coração, é tudo aquilo que tenho para partilhar contigo.
Se deres um passo em frente e olhares por cima do ombro verás que as gavetas existem porque tu acreditas que elas existem.
Essas gavetas estão cheias de palavras como estas que te escrevo.
É.
Escrevo quando consigo abrir uma dessas gavetas. Escrevo pela mão de alguém que não sou eu. Quem te escreve não sou eu, é a minha Luz. A Luz que me guia e me ensinou a dar forma ao que sinto através da palavra escrita. A Luz que me sorri sempre que tento e consigo abrir uma das gavetas que existem naquela árvore...
Hoje consegui abrir uma das gavetas e por isso sorrio. Sorrio-me. Sorrio ao Ser de Luz que sou e sorrio-te para te ver sorrir. O teu sorriso. Eu sei que não é novidade. Gosto do teu sorriso já o disse. O que ainda não te disse é que nem todas as gavetas guardam palavras escritas.
Estas gavetas guardam muita coisa.
Guardam segredos, gargalhadas, frustrações, medos, alegrias, tesouros, coisas fúteis.
Tanta coisa que nem eu sei...
Mas sei que há gavetas que guardam palavras faladas...
Nem só de palavras escritas se alimenta a árvore, nem a sombra, nem a Luz, nem eu...
Escrever é bom... acerta as distâncias ínfimas que existem entre dimensões. Mas a vibração da palavra falada tem muito mais Amor, muito mais Luz e a energia daquilo que se sente é muito mais intensa quando existe som, quando ganha voz.
O som tem a eternidade a seu favor tal como os Seres de Luz... Tal como nós e os outros.
E por isso, quero abrir outra gaveta de palavras, uma gaveta que tenha voz, uma gaveta que tenha a minha voz e a tua mas tu não me deixas fazê-lo. Ficaste debaixo da árvore a observar, distraído, encostado ao tronco.
Olhas-me enquanto eu te olho e sem saberes não deixas que eu a abra.
Anda, sai da sombra, abraça-me e fala-me no idioma do teu coração. Mesmo que sejam coisas sem sentido.
Chega-te de mim e deixa-me chegar à árvore.
Deixa-me abrir a gaveta, preciso dar Luz e corpo ás palavras, falar-te de coração escancarado, para cá da linha da sombra da árvore e mais perto de ti...
Dou-te mão...
Vens?!
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