março 25, 2016

Hoje vi um pomar de unicórnios que pastava livremente na planície de livro. Reparei que algumas maçãs esvoaçavam sob as aguas cristalinas do céu enquanto outras faziam ninhos nas rodas das bicicletas com migalhas de Futuro. Ao fundo, o horizonte tinha uma grande porta azul com um postigo onde ondulavam umas pequenas cortinas cor de fogo. O relógio estava desfocado da paisagem e os ponteiros marcavam os tempos de uma enorme orquestra nas mãos de um maestro. Ouvia-se o canto estridente do tempo e o encanto suave do vento nas sombras esguias das fitas brancas de seda que construíam a ponte que me separava do resto. No chão havia uma moldura dourada feita dos cadáveres das folhas das árvores e, ao lado uma fotografia a preto e branco que rastejava lentamente para dentro dela mesma. Ordenei ao coração que parasse e erguesse barreiras, e paredes e muros em todos os pontos de fuga do meu corpo. Foi-me urgente a pompa e circunstância da inauguração relâmpago de uma enorme barragem de sangue mesmo ao lado do miocárdio. Sucumbir à vida numa overdose de sonhos era a melhor das eutanásias para os próprios sonhos. Sem dor, sem revolta, sem sentir nada e na melhor das hipóteses sem conjugar o verbo morrer na primeira pessoa do singular. Eu morri. Voltei a abrir o livro na pagina 17, senti a textura fina e macia da pétala do livro. Mal me quer, bem me quer, mal me quer, bem me... Num impulso amputei ao livro aquele tentáculo que à força ainda me agarrava à Vida e me mantinha à tona de um desenho paralelo. Amarrotei a folha o mais que consegui e com a habilidade da ponta dos dedos fiz uma bola imperfeita e enluarada que guardei no fundo da algibeira. Acabara de roubar a Lua Cheia. O luar era agora o melhor dos amantes daquela noite que foi só minha.

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